sexta-feira, 10 de novembro de 2023

Os livros do mês - novembro

 

“Às vezes pergunto-me se certas recordações são realmente minhas, se não serão mais do que lembranças alheias de episódios de que eu tivesse sido actor inconsciente e dos quais só mais tarde vim a ter conhecimento por me terem sido narrados por pessoas que neles houvessem estado presentes, se é que não falariam, também elas, por terem ouvido contar a outras pessoas. Não é esse o caso daquela escolinha particular, num quarto ou quinto andar da Rua Morais Soares, onde, antes de termos ido viver para a Rua dos Cavaleiros, eu comecei a aprender as primeiras letras. Sentado numa cadeirinha baixa, desenhava-as lenta e aplicadamente na pedra, que era o nome que então se dava à ardósia, palavra demasiado pretensiosa para sair com naturalidade da boca de uma criança e que talvez nem sequer conhecesse ainda. É uma recordação própria, pessoal, nítida como um quadro, a que não falta a sacola em que acomodava as minhas coisas, de serapilheira castanha, com um barbante para levar a tiracolo. Escrevia-se na ardósia com um lápis de lousa que se vendia em duas qualidades nas papelarias, uma, a mais barata, dura como a pedra em que se escrevia, ao passo que a outra, mais cara, era branda, macia, e chamávamos-lhe «de leite» por causa da sua cor, um cinzento-claro, tirando a leitoso, precisamente. Só depois de ter entrado no ensino oficial, e não foi nos primeiros meses, é que os meus dedos puderam, finalmente, tocar essa pequena maravilha das técnicas de escrita mais actualizadas.”

quinta-feira, 9 de novembro de 2023

A queda do muro de Berlim

 

Duas nações entre as quais não há relacionamento, nem simpatia; que ignoram de tal forma os hábitos, pensamentos e sentimentos da outra parte que parecem habitantes de planetas diferentes. Os ricos e os pobres.» (1)

 Vivemos tempos em que a memória é pouco relevante na construção dos dias e como sociedade perdemos a noção do valor que gerações emprestaram às suas lutas por uma sociedade decente, onde os valores humanos representavam a marca de gerações pelo bem comum. Esta descontinuidade com o passado é uma das causas para este olhar passivo para a desigualdade social e lidamos com indiferença, perante as dificuldades de muitas pessoas. É por isso essencial relembrar a História.

 O Muro de Berlim é um dos marcos mais importantes da História Contemporânea, pois tem nele o simbolismo de um mundo dividido, após o fim da segunda guerra mundial, onde dois modos de ver o mundo eram tão demarcados no quotidiano. Os traços essenciais.

 Até 1961 os habitantes de Berlim, os Berlinenses tinham acesso a circular livremente dentro da sua cidade. Fruto da guerra fria e da migração dos habitantes de Berlim Oriental para ocidente, aquela iniciou a construção de um muro a treze de agosto de 1961.  A sua construção dividiu ruas, prédios, separou famílias em poucas horas, tinha torres eletrificadas, protegidas com arame farpado e vigiava todo o seu extenso espaço com cerca de trezentos postos guardados por soldados.

 O Muro representou o pior de um mundo que não respeitava a liberdade individual das pessoas, a sua humanidade perante um Estado policial que segregava os seus cidadãos. Os anos oitenta assistiram ao colapso de uma sociedade que impedia o indivíduo de participar criativamente na organização do seu presente. A ideia de que o Estado poderia regular, tudo, do nascimento à morte veio confirmar o absurdo de um modelo social e político. Os suportes dos regimes a leste, apoiados numa indústria obsoleta e excessivamente ligada à produção de equipamentos militares não souberam resistir às mudanças que foram surgindo. Da União Soviética, à Polónia e à Hungria o sistema socialista revelou-se incapaz de impedir uma mudança.

A 9 de Novembro de 1989, o mundo assistiria à queda de um muro, consequência da vontade de tantos alemães a leste de se mudarem para a parte oeste, processo que se verificou incontrolável. O fim do muro representou o fim de uma hostilidade entre dois blocos e a abertura para um mundo mais livre e mais participativo. Em 1990, as duas Alemanhas iriam-se juntar formando um único País. Mas persistem demasiados muros, erguidos por uma cegueira fundamentalista sem memória. O Muro abriu uma porta que a classe política europeia não soube aproveitar.

Na queda do muro de Berlim participaram, lutaram, viveram e morreram gerações de homens e mulheres que acreditaram na liberdade individual como forma e expressão do desenvolvimento humano e como este é inseparável de uma procura de nivelação igualitária cultural e social. O Muro de Berlim é hoje, quase um vestígio do que foi a História da Europa e do Mundo, mas ainda é uma lição para os que se esquecem de como os movimentos sociais são desenvolvidos e alimentados por sonhos individuais.

 (1) Benjamin Disraeli, citado por Jean- Pierra Lehhman

Leituras...

 

"Ontem à tarde, apaixonei-me por uma árvore. Passa os seus dias na berma de uma estrada regional, a uma dezena de quilómetros daqui. A sua folhagem cobre uma parte da estrada. Ao atravessar a sombra que projeta, levantei a cabeça, olhei para os seus ramos como ao entrar numa igreja os olhos se dirigem por instinto para a abóbada. A sua sombra era mais quente do que a das igrejas. Uma das experiências mais delicadas da vida é a de caminhar com alguém pela natureza, falando de tudo e de nada. A conversa mantém os passeantes junto a si próprios, e por vezes algo da paisagem impõe o silêncio, impõe sem constrangimentos. O aparecimento dessa árvore fez surgir em mim um silêncio de completa beleza. Durante alguns instantes não tinha nada a pensar, a dizer, a escrever e até, sim, nada mais a viver. Fui levantado alguns metros acima do solo, carregado como uma criança nos braços verdeescuro, iluminados pelas sardas do sol. Durou alguns segundos e esses segundos foram longos, tão longos que um dia depois duram ainda. O que aconteceu ontem preencheu-me. Parece-me vão querer a repetição. Num punhado de segundos, essa árvore deu-me alegria suficiente para os próximos vinte anos - pelo menos.
Olho este caderno, apenas escrevi a data, levanto a cabeça, um pardal bate as asas no céu, e já está: a minha página está escrita, o pássaro acabou de levar o dia inteiro nas suas asas."
Bobin, C. (2022). Auto-retrato com radiador. Porto: Flaneur.

Auto-Retrato com radiador / Christian Bobin. (2020). Porto: Flâneur.

quarta-feira, 8 de novembro de 2023

Leituras...

O mundo é um vazio desmedido que não queremos nem podemos aceitar, os homens também, as cidades, os países, os planetas também. Não há palavras que encham tanto vazio. Os livros que deixamos são obras de filigrana, fios ténues do sentido com que delimitamos o volume do que não entendemos."

No meu peito não cabem pássaros junta três figuras maiores da Literatura do século XX, justamente, Franz Kafka, Jorge Luís Borges e Fernando Pessoa.  Junta-as a partir da leitura da vida que se constrói, de um imigrante em Nova Iorque, de um rapaz que chega a Lisboa e de uma criança que inventa coisas, formas de anunciar o que acontecerá mais tarde.

 No meu Peito não batem Pássaros realiza a narrativa de três figuras a descobrirem espaços urbanos, a carregar sonhos maiores que eles, a compor palavras com a linha comum de inventar um mundo. É um livro sobre criadores, é um livro sobre cidades e ainda um livro sobre três figuras que entre a solidão e a desilusão nos definem o assombro das palavras, a linguagem para compor aquilo que é a vida de milhões, o prenúncio do mundo moderno.

 No meu Peito não batem Pássaros fala-nos da vida, da memória, da morte, do esquecimento, entre os caminhos que percorremos, com o sol a nascer em nós. A infância, o consolo das histórias vividas e inventadas entre os que no tempo forjaram o azul de um aconchego e nos deram a visão de um caminho.

 Livro imenso, uma sabedoria de palavras, momentos intermitentes que nos dão a linha dos olhos que procuramos para recuperar a beleza, o encontro com a respiração do amor. Ainda esse sonho antigo que nos faça ser um ponto brilhante nos dias esquecidos. A beleza e o sorriso entre as cicatrizes que nos caracterizam, que nos rasgaram o espírito e o corpo até chegar ao encontro, à mão, ao perfume solar capaz de nos fazer render um novo salto, a dos pássaros que em nós voam.

                  No meu peito não cabem pássaros / Nuno Camarneiro. (2013). Lisboa: D. Quixote.

terça-feira, 7 de novembro de 2023

Literacia - A gente não lê


A Gente não lê (Poema e Canção deRui Veloso e Carlos Tê)

"Ai, senhor das furnas
Que escuro vai dentro de nós
Rezar o terço ao fim da tarde
Só pra espantar a solidão
E rogar a Deus que nos guarde
Confiar-lhe o destino na mão

Que adianta saber as marés
Os frutos e as sementeiras
Tratar por tu os ofícios
Entender o suão e os animais
Falar o dialeto da terra
Conhecer-lhe o corpo pelos sinais

E do resto entender mal
Soletrar, assinar em cruz
Não ver os vultos furtivos
Que nos tramam por trás da luz

Ai, senhor das furnas
Que escuro vai dentro de nós
A gente morre logo ao nascer
Com olhos rasos de lezíria

De boca em boca passando o saber
Com os provérbios que ficam na gíria 

De que nos vale esta pureza
Sem ler fica-se pederneira
Agita-se a solidão cá no fundo
Fica-se sentado à soleira
A ouvir os ruídos do mundo
E entendê-los à nossa maneira

Carregar a superstição
De ser pequeno ser ninguém
E não quebrar a tradição
Que dos nossos avós já vem"
 

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