domingo, 4 de fevereiro de 2024

O autor do mês - fevereiro

 

(Livro emblemático de Garrett, numa viagem, onde o imobilismo social anunciava solidamente as dificuldades da sociedade liberal em se afirmar nos seus princípios mais nobres. Retrato de um anacronismo histórico que se repetiria no futuro, em formas diversas com outros atores). 

Almeida Garrett nasceu a 4 de fevereiro de 1799, no Porto. Teve na sua infância, uma formação religiosa e clássica. Concluiu o curso de Direito em Coimbra, onde aderiu aos ideais do liberalismo. Em 1823, após a subida ao poder dos absolutistas, é obrigado a exilar-se em Inglaterra onde inicia o estudo do romantismo (inglês), movimento artístico-literário então já dominante na Europa. 

 Regressa em 1826 a Portugal e passa a participar na vida política. Em 1828 é obrigado a exilar-se novamente em Inglaterra devido ao curso do País com a guerra civil, no decurso das posições de D. Miguel. Em 1832, na Ilha Terceira,1832, integra o exército liberal de D. Pedro IV e participa no cerco do Porto. Exerceu funções diplomáticas em Londres, em Paris e em Bruxelas. 

Em 1836, torna-se  Inspetor-geral dos Teatros e funda o Conservatório de Arte Dramática e o Teatro Nacional. A partir de 1842, com a ditadura de Costa Cabral, Almeida Garrett torna-se marginal à vida política e inicia o período mais produtivo da sua vida literária.

A partir da década de 1850, com Fontes Pereira de Melo, será nomeado visconde e desempenha a função de Ministro dos Negócios Estrangeiros. É sem dúvida um dos expoentes do romantismo português e um escritor que, entre géneros diversos, inovou na composição dos mesmos.

"Ora eu, que sou ministerial do Progresso, antes queria a oposição dos frades que a dos barões. O caso estava em a saber conter e aproveitar. O Progresso e a Liberdade perdeu, não ganhou. Quando me lembra tudo isto, quando vejo os conventos em ruínas, os egressos a pedir esmola e os barões de berlinda, tenho saudades dos frades - não dos frades que foram, mas dos frades que podiam ser. E sei que me não enganam poesias; que eu reajo fortemente com uma lógica inflexível contra as ilusões poéticas em se tratando de coisas graves.

 E sei que me não namoro de paradoxos, nem sou destes espíritos de contradição desinquieta que suspiram sempre pelo que foi, e nunca estão contentes com o que é. Não, senhor: o frade, que é patriota e liberal na Irlanda, na Polónia, no Brasil, podia e devia sê-lo entre nós; e nós ficávamos muito melhor do que estamos com meia dúzia de clérigos de requiem para nos dizer missa; e com duas grosas de barões, não para a tal oposição salutar, mas para exercer toda a influência moral e intelectual da sociedade - porque não há de outra cá.

 E senão digam-me: onde estão as universidades, o que faz essa que há senão dar o seu grauzito de bacharel em leis e medicina? O que escreve ela, o que discute, que princípios tem, que doutrinas  professa, quem sabe ou ouve dela senão algum eco tímido e acanhado do que noutra parte se faz ou diz?

Onde estão as academias?
Que palavra poderosa retine nos púlpitos?
Onde está a força da tribuna?

Que poeta canta tão alto que o ouçam as pedras brutas e os roblles duros desta selva materialista a que os utilitários nos reduziram? Se exceptuarmos o débil clamor da imprensa liberal já meio esganada da polícia, não se ouve no vasto silêncio deste ermo senão a voz dos barões gritando contos de réis.
Dez contos de réis por um eleitor!
Mais duzentos contos pelo tabaco!
Três mil contos para uma  conversão ...!
Cinco mil contos para as estradas dos aeronautas!
Seis contos para isto, dez mil contos para aquilo!
Não tardam a contar por dezenas de milhares. 
Contar a eles não lhes custa nada.

A quem custa é a quem paga para todos esses balões de papel - a terra e a indústria.  (...) Não: plantai batatas, ó geração de vapor e de pó de pedra, macadamizai estradas, fazeis caminhos de ferro, construí passarolas de Ícaro, para andar a qual mais depressa, estas horas contadas de uma vida toda material, maçuda e grossa como tendes feito esta que Deus nos deu tão diferente do que a que hoje vivemos. Andai, ganha-pães, andai; reduzi tudo a cifras, todas as considerações deste mundo a equações de interesse corporal, comprai, vendei, agiotai. No fim de tudo isto, o que lucrou a espécie humana?"

Almeida Garrett, Viagens na Minha Terra.

terça-feira, 30 de janeiro de 2024

Memória da Shoah

 

O vento toca a lira,
Ele toca tão suave no verde pântano,
O rouxinol canta sua canção.
Wiegala, wiegala, weier
O vento toca a lira.

Wiegala, wiegala, werne,
A lua é a lanterna,
Imóvel no céu escuro
E olha para o mundo.
iegala, wiegala, werne,
A lua é a lanterna.

Wiegala, wiegala, wille,
Por que o mundo está tão quieto?
A doce quietude não é perturbada por nenhum som,
Durma meu filho, durma você também.
Wiegala, wiegala, wille,
Por que o mundo está tão quieto?”

Ilse Weber, “Wiegala”

sexta-feira, 26 de janeiro de 2024

Escritas de cinema

 O rapaz do pijama às riscas


FICHA TÉCNICA

Título original: The Boy in the Striped Pyjamas
Direção: Mark Herman
Roteiro: Mark Herman
Elenco: Asa Butterfield, David Thewlis, Rupert Friend, Vera Farmiga
Duração: 99 min
DE 2008 • DRAMA, GUERRA • 94 minutos • M/12 • US
Realização: Mark Herman

terça-feira, 23 de janeiro de 2024

Livros do mês - janeiro - IV

"Estou sentada em cima da minha mochila, no centro de um vagão cheio, e preciso de te ajudar, meu Deus. (...)

Estou sentada em cima da minha mochila, o vagão trepida, as crianças dormem e os velhos velam,  e eu vou no transporte e penso que tenho de te ajudar, meu Deus. Tu não tens forças para nos socorrer, por isso eu preciso de vir em teu socorro. Porque tu estás reduzido a tão pouco, e não podes valer a todos, então eu preciso de te dar as minhas forças. Precisas de ajuda, meu Deus, porque estás ferido e exangue. Precisas que eu trate de ti, que te vele, que te dê um pouco do calor que guardo em mim, dentro das camisolas de lã. Que eu guarde este calor por ti, dentro de mim.

 Eu queria ser o coração pensante dos barracões, meu Deus, porque todos os outros estavam tão ocupados, sempre mais atarefados do que eu. Porque os outros tinham filhos pequenos e os pais a morrerem, e estavam terrivelmente assustados. Mas eu não tinha medo, podia pensar por eles. Podia levar os pensamentos deles até ti, meu Deus, como um correio que não abrisse as cartas para as censurar. Queria ser o coração pensante, quando os outros não tinham tempo para pensar, à procura de comida, agasalho e notícias. E queria ajudar-te a pensar com eles, pensar os pensamentos deles.

 Eu ajoelhava em frente ao urzal, meu Deus, o urzal atrás do arame farpado. E tu estavas ali, pobre, atrás do arame farpado. Os raios de sol nas urzes, na água gelada, atrás do arame farpado.

Deixa-me agora ser o coração do vagão, meu Deus. 

Estão demasiado cansados, mal conseguem falar. Mas se eu levar o meu pensamento pela noite fora, toda a viagem de comboio, até ao fim, é como se guardasse um pouco de calor, intacto, por nós todos. Deixa-me guardar o resto do pensamento. Mesmo  a tremer, mesmo a cair de cansaço ainda hei-de conseguir um pouco de força para te amparar. (...)

 Eu aceito tudo , meu Deus. Continuo a ajoelhar, e ajoelharei no vagão e no campo, como ajoelhei em frente ao urzal. Se eu não te ajudar, meu Deus, quem te levará até à morada da morte?

Espreito pela frincha, o ar entra, tudo está morto. Montanhas e florestas. 

Tenho tudo dentro de mim, mesmo quando é tão difícil.

 Partimos de Westerbork há dois dias. Como se a viagem durasse anos de vida. Pode-se envelhecer vidas inteiras num vagão, durante uma noite. Todos nós, mesmo as crianças, somos agora muito velhos. Com mais velhice do que cabe numa vida. Amanhã chegaremos ao campos, e ninguém sabe o que acontecerá. Correm rumores horríveis. mas seja o que for que nos espera, meu Deus, eu aceito. Mesmo na morada da morte te ajudarei.

 Olho pela frincha. Lá em cima, a Ursa Maior, clara, nítida, e fria. Que nos acompanha desde a partida. Por que é que as estrelas andam quando eu ando, perguntou-me uma criança em Westerbork, e param quando eu paro?

Uma pequena força dentro de mim. 

 As estrelas brilham sobre a neve. Uma claridade branca começa atrás dos montes, o dia nasce do lado para onde o transporte avança. Vejo um caminho, uma casa. Um regato gelado. Luzes ao longe, uma cidade. Uma placa a indicar a direcção. 


Consigo ler a placa: "Leipzig". 
E a neve recomeça a cair. 
Uma pequena força, meu Deus, dentro de mim."

 Pedro Eiras. (2014). "Etty Hillesum", in Bach. Porto: Assírio& Alvim