terça-feira, 21 de novembro de 2023

Leituras...

"Enchi a minha vida de erros e acertos. Erros são as certezas e acertos as interrogações. Fica a mudança. Essa velha doida que se apodera do tempo. É uma ilusão a permanência. O que há é apenas circunstância. cada dia é o princípio da invenção do mundo."

O Convento de Mafra e o Terramoto de Lisboa enquadram por diversas questões o século XVIII português. Decidido em 1711, e começado a sua construção em 1717, o convento marcou o reinado de D. João V e fala-nos muito da dimensão cultural e política do século XVIII. O Terramoto de 1755 foi um acontecimento marcante e a ele Luís Rosa dedicou um livro muito especial. Afinal a materialidade do património erigido de que modo imprime em si as ideias do seu tempo? O Tempo evolui e lê-lo no seu próprio tempo é quase pensar o futuro. Estas duas obras relacionam-se um pouco nessa dimensão. O Terramoto criou um novo pensamento, inventou um outro mundo e é sobre isso que fala este livro.

"O arquitecto era toda a gente debruçada na janela da mudança. Há pessoas que não têm escolha. Têm de viver empurrados pelo destino, encostados à esquina da vida. Era a vida toda feita de interrogações imperfeitas que vinha ter com ele. Viveu entre dois tempos. O tempo dos mitos e o tempo da razão, que se diz esclarecida. Tinha de ser, a um tempo, igual e o contrário de si próprio. O homem mais livre de sonhar ideias e o mais geométrico a realizá-las. Mas isso, todo o homem é um nómada de acertos e desacertos.
Foi a invenção do mundo. Aquele ano durou muitos anos, 1755. Ruiu tudo o que havia sido pensado até ali. Não foi só o abalo inaudito que arrasou Lisboa, foi o travamento do pensamento que se desmoronou. Debaixo do mundo dos mitos, dizia-se, brotara a luminosidade da razão. A razão era o que ficava da lembrança de Deus. Sempre andamos à procura de convicções. Quando umas se esvanecem, na contradição de si mesmas, inventamos outras.(...) 

Foi ele, o arquitecto, Eugénio dos Santos e Carvalho de seu nome completo, aquele que fez o projeto da reconstrução de Lisboa, foi ele que me ensinou que o homem é a invenção do mundo. 

E eu pensava que o mundo aí estava, completo e acabado, num conjunto de regras e preceitos, infernos e paraísos, administrados pelo círculo da minha tonsura clerical. Éramos dois homens situados cada um num extremo indefinido do pensamento. O homem é esse extremo da criação que tem o direito de errar. E o dever de ir atrás do caminho e acertar. Digo bem. Ir atrás de ... Porque o certo e o desacerto estão para além de agir e da intenção. (...)

 O mundo inventa-se quando o pensamento dá um salto para outra dimensão. Reinventa-se todos os dias. Mas há factos que rasgam a parcimónia do passado e gritam uma interrogação ao futuro. O terramoto foi isso. O início da invenção do mundo. Depois hão-de vir revoluções a julgar que tudo mudam. Ilusão. (...) O mundo muda quando uma ideia muda. (...)

'O caos é a forma apropriada da limitação. E a mudança o modo sucessivo de coabitar com o caos. Ao homem cabe evoluir até que a ordem predomine e a naturalidade do simples se traduza em perfeição. Por isso as coisas não são apenas coisas. são um percurso entre a perfeição e caos. (...9 Mas o espírito não é rectilíneo. E a arte reflete o espírito. Assim é. O futuro comportará todos os pontos de vista, coexistindo e tolerando-se. Saímos de uma época de vaidades a aparências. O tempo das convenções começa a chegar ao seu fim. É necessário refazer o espírito no alicerce da racionalidade'."

O Terramoto de Lisboa e a Invenção do Mundo / Luís Rosa. (2004). Lisboa: Editorial Presença.

segunda-feira, 20 de novembro de 2023

Leituras...

 

Nomear as coisas, sentir a ligação entre o mundo em que vivemos e o nosso próprio eu é uma das formas de conexão ao real. Os limites do nosso mundo são os limites da nossa linguagem, como disse Wittgenstein e assim, de que forma o digital limita aquilo que é o nosso conhecer, a capacidade de construir uma relação afetiva com as coisas.?
"A ordem terrena, a ordem da Terra, consiste em coisas que adquirem uma forma duradoura e que criam um ambiente estável para habitar. Hoje, a ordem terrena está a ser substituída pela ordem digital. Hoje encontramo-nos na transição da era das coisas para a era das não coisas. Não são as coisas, mas as informações que determinam o mundo em que vivemos. O mundo torna-se cada vez mais incompreensível e espectral. Nada é firme e palpável. As coisas são pontos de repouso da vida. Hoje em dia estão totalmente cobertas de informações, que são tudo menos pontos de repouso da vida."


Não-Coisas / Han, Byung-Chul. (2022). Lisboa: Relógio D´Água.

sexta-feira, 17 de novembro de 2023

Livros do mês - novembro II

 

II

 

"O meu olhar é nítido como um girassol.

Tenho o costume de andar pelas estradas

Olhando para a direita e para a esquerda,

E de vez em quando olhando para trás...

E o que vejo a cada momento

É aquilo que nunca antes eu tinha visto,

E eu sei dar por isso muito bem...

Sei ter o pasmo essencial

Que tem uma criança se, ao nascer,

Reparasse que nascera deveras...

Sinto-me nascido a cada momento

Para a eterna novidade do Mundo...

 

Creio no Mundo como num malmequer,

Porque o vejo. Mas não penso nele

Porque pensar é não compreender...

O Mundo não se fez para pensarmos nele

(Pensar é estar doente dos olhos)

Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo…

 

Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...

Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,

Mas porque a amo, e amo-a por isso,

Porque quem ama nunca sabe o que ama

Nem sabe porque ama, nem o que é amar...

 

Amar é a eterna inocência,

E a única inocência é não pensar..."


8.3.1914

"O Guardador de Rebanhos", in Poemas de Alberto Caeiro. Fernando Pessoa. Lisboa. Relógio d´Água.

quinta-feira, 16 de novembro de 2023

Dia Mundial da Filosofia

 

Como se chega ou se incentiva o pensamento filosófico? Como se obtém a capacidade de construir um pensamento e interrogar o que nos rodeia? É possível nascer como filósofo ou aprende-se com o tempo, com o que estudamos, com a experiência do que vamos tendo na vida? Se todos poderiam ser filósofos, no sentido de colocar questões ao que não se compreende por que alguns deixam de o ser ao longo da vida? Como se incentiva a formulação das perguntas deixadas por culturas ancestrais, onde a vida foi pensada como uma visão, uma possibilidade? Pode essa abordagem à vida ser incentivada e a partir de quando e terá um limite, ou poderá ter a temporalidade da respiração de cada um? Não é tantas vezes o pensamento, a capacidade de formular uma questão um desenho de belo sobre as coisas?
Michel Onfray dá-nos algumas pistas.

"Penso realmente que nós nascemos filósofos e só alguns o continuam a ser. Há uma grande razão nas crianças que perguntam "porquê". Querem saber. Porque é que a noite é negra, porque é que a água molha, ou porque é que as pessoas morrem. As crianças colocam grandes questões de Ontologia, de Metafísica, de Filosofia.
E muitas vezes os pais renunciam a responder porque não têm, forçosamente, os meios intelectuais, ou o tempo. Por vezes dizemos: não sei, mas vamos encontrar numa biblioteca, vamos procurar num livro. Depois, há um momento, em que as pessoas acabam por renunciar a responder às questões. E desde que se entra na escola, pede-se que cada um responda a questões que nunca nos foram colocadas.

E dizem-nos: agora, se quiseres ser um bom aluno deves saber qual é o PIB de um país qualquer. Naturalmente ninguém é levado a colocar-se essa questão. Aprendemos na escola, coisas muitas vezes, pouco significativas. Dizem-vos: as questões que te colocaste cessa de as colocar. Em troca aprende as respostas a questões que tu raramente te colocas.
Efetivamente isso desespera um certo número de indivíduos e alguns resistem a isso. E esses que resistem a isso, dizem:
- Eu persisto com as minhas questões, eu quero as minhas respostas. Vou procurá-las. Ora bem, esses são os naturais filósofos. E em seguida, podem tornar-se filósofos de profissão porque terão aprendido na Universidade. E colocarão as questões, quem pensou o quê, quando, como, de que forma. E depois disso, um dia talvez, uma destas pessoas que exerceu o pensamento, que se questionou possa escrever livros de Filosofia, possa ser um Filósofo no sentido académico porque se pôs a questão fundamental: o questionamento do sentido da vida."

Michel Onfray, La Grande Librairie. Magazine Littéraire. TV5. 2013.
O pensador de Rodin. Musée Rodin, 1904.

Dia do Patrono da Escola

 Parabéns José Saramago!


"Com a mesma veemência com que reivindicamos direitos, reivindiquemos também o dever dos nossos deveres. Talvez o mundo possa tornar-se um pouco melhor.” (1)

Integrado no dia do patrono da ESJS diversas turmas puderam evocar o nascimento de José Saramago. Fui visionado o filme A Jangada de Pedra e apresentadas algumas ideias a discussão como os direitos e os deveres se relacionam com o significado de ser humano. Foram lidos alguns excertos de palavras de José Saramago e pensada a questão do valor das palavras na sua relação com o real e com o virtual e dos significados do que significa construir a Democracia.
 

(1) - Saramago, J. (2014, 10 de dezembro), discurso do banquete do Nobel, em 10.12.1998.
Fonte: Fundação José Saramago.