Espaço de partilha e divulgação das atividades da Biblioteca Escolar da Escola Secundária José Saramago - Mafra
sexta-feira, 5 de janeiro de 2024
Escritas de cinema
segunda-feira, 1 de janeiro de 2024
O autor do mês - janeiro I
Os espaços de convívio eram um dos sinais
do Porto e de muitas cidades há alguns anos. Conversava-se, discutia-se e
encontravam-se pessoas muito diversas. Existia um certo sentido de comunidade.
Hoje as comunidades são virtuais o que significa que não são comunidades,
pois as coisas, os seus nomes, as suas referências perdem-se ou ausentam-se se
um sinal respirado, vivido. Nesse tempo o Porto tinha alguns espaços
marcantes. O café Magestic ou o Guarani era
um deles e não raras vezes descendo os espaços da cidade era possível encontrar
figuras das letras e das artes.
As Artes e as Letras era
uma revista que juntava admiradores e criadores de conteúdos culturais
que divulgava algumas dessas ideias e produções artísticas. às vezes um
artista plástico dava corpo a um texto, a uma homenagem. No distante 2013
dedicou-se um desses números a Eugénio de Andrade.. H. Mourato deu forma a essa
plasticidade das suas palavras. Estas palavras a Eugénio de Andrade são a
celebração da sua poesia, mas também a memória do que foram cafés e tertúlias,
onde tantas ideias , onde tantas ideias se
ajuntaram para qualquer coisa mais belo. Algumas dessas palavras:
"Com
aquele semblante austero, aquele olhar levantado e distante quando era visto
(ou quando se via) passar; com aquela solitária presença, protegido de silêncio
ou mergulhado profundamente, com todos os sentidos, numa leitura absorvente,
quem ousava romper uma tal serenidade ou quebrar essa muralha com que procurava
proteger-se? E, no entatnto, bastava uma saudação amável ou até um sorriso
apenas para "abrir a porta". (...)
O
halo da sua presença atraía e, com aquela sua voz inconfundivelmente amável e
sedutora, quem quer que o ouvisse não podia deixar de ficar preso à sua
musicalidade nem à sabedoria adivinhada em cada palavra ouvida. Mesmo não o
conhecendo, pela sua voz, pela figura, era "alguém" invulgar. E era.
Era o Poeta: o arquitecto exímio da palavra, com a qual era capaz de
edificar palácios que resistirão ao tempo, ao mundo, aos homens, mesmo que
os que por deficiência genética ou por ambição se tornam demolidores.
Quem
o conheceu e lhe é leal não pode deixar de lembrá-lo como homem bom e cortês,
afável, delicado, carinhoso, fiel, sem outra ambição que não fosse encontrar
"uma sílaba, uma sílaba só...uma vogal, uma consoante, quase nada" e
dar à sua vida a dimensão que pudesse ser pesada "num prato de
balança" com um verso seu. Não sei de destino mais glorioso. Passou a
vida toda a transformar a luz em canto.
Que
singularidade a vida e a existência deste ser comum que amou um lódão como uma
criança, que louvou a heroicidade de Chico Mendes ou a memória de Ruy Belo por
palavras que mais ninguém saberia harmonizar! (...) Quem te lê, sente que
enlevas e elevas para onde só a poesia como a tua é capaz de transportar.
Felizes aqueles que podem guardar no coração e em qualquer momento um verso
teu.Isso fá-los-á estar sempre mais próximo do sol".
Imagem, a partir de uma escultura do mestre de artes plásticas, H.
Mourato
sexta-feira, 15 de dezembro de 2023
Uma biblioteca imaginária - sugestões de leitura
"É então isto um livro,
este, como dizer?, murmúrio,
este rosto virado para dentro de
alguma coisa escura que ainda não existe
que, se uma mão subitamente a toca,
se abre desamparadamente
como uma boca
falando com a nossa voz?
É isto um livro,
esta espécie de coração (o nosso coração)
dizendo ‘eu’ entre nós e nós?”
Manuel António Pina,”Os livros”, in Todas as Palavras, Assírio & Alvim.
O livro é uma continua viagem, a escrita da nossa imaginação tornada possível em mundos inventados e “quase” reais. Existe a viagem que se se realiza dentro do livro, dos instantes de leitura, das cores e dos aromas dos espaços onde se realiza. A viagem permanente, aquela que nos permite transformar um sentido, uma forma de ver o mundo, de nele escrever o que tentamos ser. A viagem como descoberta, nas suas dimensões físicas e espirituais.
Conhecer o mundo é ir ao encontro de diversas culturas, de diferentes cores, de ver vários modos de vida. Os livros podem ser os pontos de uma descoberta ou de uma memória. Ler como viajar é construirmo-nos. Partir das palavras e fazer o caminho para descobrir os poemas do planeta, em cada recolha de sal e pó. É a viagem que nos organiza, nos identifica e é nela que a variedade do mundo nos recria. A viagem é uma forma de aprendizagem, com ela podemos compreender a beleza do planeta, a sua diversidade, o belo nos momentos de imperfeição de que é composta a vida. Afinal, como disse Santo Agostinho o “mundo é um livro”. Importa conhecê-lo nas suas formas materiais e nas suas palavras, essa biblioteca imaginária que é cada um de nós. Deixamos algumas sugestões de leituras para estes dias.
quinta-feira, 14 de dezembro de 2023
Os leitores
Os Leitores que integram o Top5 com mais requisições durante o 1º período. A todos eles os nossos parabéns!
quarta-feira, 13 de dezembro de 2023
Livros mais requisitados: novembro e dezembro
Alguns dos títulos requisitados no 1.º período:
terça-feira, 12 de dezembro de 2023
Leituras... Um conto de Natal
Um conto em alguns dias:
- Eu já estou velha para essas andanças.
De dia para dia mudávamos de lugar. E todas as manhãs deparávamos com novas casas, mais rebanhos, pastores, gente que descia das serras, atravessava os rios e os lagos. Os caminhos ficavam cada vez mais cheios. E todos iam para Belém. À noite tremulavam luzes. Acendiam e apagavam. Mas ainda não se via a cabana, nem Maria, nem José.
Então uma noite, entre as estrelas do céu, aparecia uma que brilhava mais que todas. (I)
- Esta é a estrela, dizia a avó.
E era uma estrela que nos guiava. Na manhã seguinte lá estavam eles, os três reis do Oriente, Magos, explicava o pai, que também não dizia Pai Natal, dizia S. Nicolau, talvez por influência de uma misse de origem russa que em pequeno lhe falava de renas e trenós e de S. Nicolau atravessando as estepes. Cheirava a musgo na sala de jantar. Cheirava a musgo e a lenha molhada que secava em frente do fogão. E os Magos lá vinham, a pé, de burro, de camelo. Traziam o oiro, o incenso, a mirra. Às vezes nós, os mais pequenos, juntávamo-nos e cantávamos: “Os três reis do Oriente / Já chegaram a Belém.”
- Não chegaram nada, atalhava a avó, ainda não.
Estávamos cada vez mais perto. E também nervosos. Confesso que às vezes fazia batota. Empurrava-nos um pouco mais para a frente, para mais perto de Belém e do lugar onde eu sabia que mais tarde ou mais cedo a avó ia pôr a cabana. Mas ela descobria.
- Não lucras nada com isso, podes apressar toda a gente, não podes apressar o tempo.
Cada vez havia mais luzes na Judeia. Por vezes surgiam novos lagos, eram mistérios da minha avó. E a estrela lá estava, a grande estrela de prata que brilhava mais do que todas as outras, às vezes eu ia à janela e via a projecção daquela estrela, ficava confuso, já não sabia se era a estrela da sala ou uma estrela do céu, era uma estrela nova, uma estrela de prata, era uma estrela que nos guiava. No céu, na sala, na Judeia, talvez dentro de nós." (II)
Depois, muito comovida, quase sempre com lágrimas nos olhos, as figuras de Maria e José.
- Não há nada tão antigo nesta casa, já eram dos avós dos meus avós.
Impressionava-me sobretudo o manto muito azul de Maria e o rosto magro, quase assustado, de José. A avó limpava-os com muito cuidado e mandava-nos sair. Nunca nos deixou ver o resto.
À noite, quando regressávamos da missa do galo, a que a avó não ia, chegávamos a casa e finalmente estávamos em Belém. A estrela brilhava intensamente sobre a cabana, Maria e José debruçavam-se sobre o berço, onde Jesus, todo rosado, deitado nas palhinhas, agitava os braços e as pernas, envolvido pelo bafo quente dos animais, enquanto os três reis do Oriente, agora sim, chegavam a Belém para depositar aos pés do Menino o oiro, o incenso, a mirra. E vinham os pastores, e vinha o pai, de caçador, a mãe, de vestido de baile, e vínhamos nós, eu, a minha irmã, os primos, não éramos de porcelana nem de barro, estávamos ali em carne e osso, era noite de Natal, uma estrela nos guiava, brilhava sobre a Judeia e sobre o presépio, brilhava cá fora entre as estrelas, brilhava dentro de nós. Naquela noite, naquele momento, nós não estávamos na sala de jantar em frente do presépio, tínhamos chegado finalmente a Belém para adorar o Menino ao lado de Maria e José e dos três reis do Oriente, Magos, não conseguia deixar de corrigir o meu pai.
Mas mágica, verdadeiramente mágica era a avó. Era ela que fazia o milagre da transfiguração, trazia o Natal para dentro de casa e levava-nos a todos até Belém. O cheiro a musgo e a lenha. Os montes, os vales, os rios, os lagos. Caminhos e caminhos que iam para Belém. E a estrela de prata, a estrela que nos guiava. Era uma estrela no céu, dentro de casa, dentro de nós. Pela mão da avó ela brilhava. Pela sua magia Belém estava dentro de casa. E a casa também ia até Belém.
segunda-feira, 11 de dezembro de 2023
A natureza e a vida rodeiam-nos. Em latitudes nórdicas a natureza apresenta-se de tal modo que parece uma evidência uma relação com cada um, mas em todos os lugares ela se apresenta em formas de magia e mistério. As árvores inundam-se em sonhos de luz. O dia corre em sequências animadas de movimento e em fim de tarde, o seu crepúsculo morre quando as árvores adormecem de paisagem.
É a luz das árvores que nos acolhe nos dias e é nelas que o homem se vê, como no princípio das coisas. Antes dele estão todos os sonhos das árvores, todas as iluminações a dar um sentido aos caminhos do dia, à espera da palavra, o seu sagrado mistério. As árvores fundem-se no dia, com a virtude de quem compreende o nascimento, como a forma primeira e única de existir. A germinação, o crescimento e o amadurecimento. Adormecem na escuridão para se iluminar em cada dia, projetando-se no azul, como uma arquitetura de verde, a afirmar-se no solo e a desenhar uma história, uma memória.
As árvores parecem mais capazes de uma luminescência que nós. uma inteligência nas coisas. O que aprendemos desse caminho edificado no ar, nas raízes de um solo, nos sons vertidos no silêncio do bosque? O que pode o homem aprender com essa determinação de uma raiz, com o tempo concentrado em canções de vento, em asas de pássaros, em troncos de chuva? O que as árvores nos ensinam é que nós ficamos sempre como uma permanência, um rosto de brisa nos espaços vazios, o silêncio húmido da chuva, uma clareira de hibiscos nas margens do rio.
Alguns poetas românticos imaginaram o homem como uma árvore que pensa, o sentido bucólico do pensamento. Uma árvore é muito isso, o sentido da existência, a iluminação no real, o conhecimento feito iniciação. Uma árvore é uma paisagem nascida no natural, a arte do “amor de Deus”, disse Rilke, a substância da vida feita eternidade. Quando o seu sobrinho nasceu Vincent Van Gogh pintou este quadro. Neste tempo talvez nos falte isso, o sinal das árvores em cada nascimento.
Imagem: © – Vincent van Gogh, Branches with Almond Blossom, 1890 (Van Gogh Museum - Amsterdam). A Biblioteca deseja a todos um tempo feliz para estes dias de inverno e de esperança.
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Encontro com Álvaro Laborinho Lúcio (Acesso a um excerto do encontro clicando no link acima ou na imagem)
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Rómulo de Carvalho Acessível no link acima - "Rómulo de Carvalho - O príncipe perfeito" e por QR Code sobre António Gedeão que i...











