sexta-feira, 5 de janeiro de 2024

Leituras...

 

Não é certamente um livro para sonhar, mas pode ser um livro para acordar essa incapacidade de não vermos que há dimensões que não são aceitáveis.

A guerra nasce como um vírus de ambição e ganância. Não escuta e esmaga tudo, calando as vozes. É um livro onde a falta de memória inscreve o medo e a perda da vida e é o sinal mais evidente de uma decadência moral da civilização. Um livro sobre a maior tragédia das sociedades humanas.

"A guerra rasga o dia como uma doença sussurrada e veloz.
A guerra não ouve, não vê e não sente.
A guerra sabe sempre onde a temem e a esperam.
A guerra tem a forma brutal de todos os medos.
A guerra alimenta-se do ódio, ambição e rancor.
A guerra invade o sono brando dos inocentes.
A guerra tem todos os rostos da maldade que impõe.
A guerra nunca foi capaz de contar histórias(...)"

Letria, J. J. & A. (2018). A Guerra. Lisboa: Pato Lógico.

 



Livros do mês - janeiro - II

 


Há livros que resumem um século naquilo que foi vivido, a sua memória, ainda quase como uma cristalização do tempo. E nesse tipo de obras encontra-se o que era o fundamento de uma época, mas também como a vida e as sociedades mudam tantas vezes irracionalmente. O mundo de Ontem de Stefan Zweig é um desses livros (disponível na biblioteca). Na vida de um escritor ressalta a memória de um século.

"Era tocante a confiança de cercar a vida com uma paliçada sem a menor brecha, evitando assim qualquer golpe do destino, enfermava, apesar de toda a solidez e humildade da conceção de vida, de uma grande e perigosa presunção. No seu idealismo liberal, o século XIX estava sinceramente convencido de se encontrar no caminho certo e infalível que levava ao “melhor de todos os mundos”. Era com desdém que se olhava para as épocas passadas, com as suas guerras, fomes e revoltas, como para um tempo em que a humanidade ainda era menor e insuficientemente esclarecida. agora, porém, era apenas uma questão de décadas até terem sido definitivamente ultrapassados os últimos vestígios do mal e da violência, e a crença no “progresso” ininterrupto, imparável, tinha para essa época a força de uma verdadeira religião; (…)

Hoje é fácil para nós, que há muito tempo riscámos a palavra “segurança” do nosso vocabulário, como sendo uma mera ilusão, sorrir perante a loucura otimista daquela geração cega pelo idealismo e para a qual o progresso da humanidade deveria ter como consequência necessária uma evolução moral igualmente rápida. Nós, que neste novo século [XX] aprendemos a já não nos surpreendermos com nenhuma erupção de bestialidade coletiva, nós, que a cada novo dia esperávamos perversidades ainda maiores do que as doa dia anterior, somos marcadamente mais céticos no respeitante à capacidade de educação do ser humano. (...) Tivemos de nos habituar gradualmente a viver sem chão debaixo dos pés, sem justiça, sem liberdade, sem segurança. (...)
“refletindo com calma, nos perguntarmos por que motivo a Europa entrou em guerra em 1914, não encontramos um único pretexto, um único fundamento razoável."

Escritas de cinema

 


O cinema é um das ferramentas mais interessantes para conhecer a memória, ou excertos /fragmentos dela. Ao convocar imagem, literatura, música no sentido de apresentar uma narrativa que persegue diferentes objetivos, o cinema auxilia-nos a conhecer universos que não foram vividos por nós. O cinema dá-nos fontes de entretenimento, apresenta-nos contextos históricos, recria universos fantásticos e procura discutir princípios e formas de olhar o Mundo. O cinema vive muito da oferta da arte da ficção, entre o narrado como acontecimento e a poética que evidencia formas possíveis de ver o real.

O cinema possui uma linguagem diferente de outras linguagens narrativas, pois dá através da imagem bidimensional uma leitura que procura aproximar-se das dimensões do espaço físico, onde habitamos. Na verdade o cinema sugere-nos pela sua capacidade de reproduzir som e movimento uma quase identificação com uma realidade, ainda que seja uma leitura ou uma impressão daquela. O cinema apresenta-nos uma dupla representação, dos cenários, dos actores e da própria película.

Ainda assim é um recurso de grande significado na aprendizagem de quotidianos, de movimentos históricos ou do papel do indivíduo na construção de transformações sociais e culturais. O cinema é um suporte de conhecimento que nos pode levar a compreender processos e geografias culturais, formas impressivas de olhar o mundo. O blogue da Biblioteca irá destacar um filme mensalmente. Ou como sugestão de um filme em exibição, ou como recurso significativo, no âmbito da História. 

Dentro do possível deixaremos aqui algumas abordagens com guiões de abordagem a alguns filmes ou escritas sobre eles. Em cima, no link um guião aberto que pode ser usado por qualquer professor que queira propor o visionamento de um filme a uma turma e sugere-se um guião de trabalho aberto.

segunda-feira, 1 de janeiro de 2024

O autor do mês - janeiro I


Os espaços de convívio eram um dos sinais do Porto e de muitas cidades há alguns anos. Conversava-se, discutia-se e encontravam-se pessoas muito diversas. Existia um certo sentido de comunidade. Hoje as comunidades são virtuais  o que significa que não são comunidades, pois as coisas, os seus nomes, as suas referências perdem-se ou ausentam-se se um sinal respirado, vivido. Nesse tempo o Porto tinha alguns espaços marcantes. O café Magestic ou o Guarani era um deles e não raras vezes descendo os espaços da cidade era possível encontrar figuras das letras e das artes.  

As Artes e as Letras era uma revista  que juntava admiradores e criadores de conteúdos culturais que divulgava algumas dessas ideias e produções artísticas.  às vezes um artista plástico dava corpo a um texto, a uma homenagem. No distante 2013 dedicou-se um desses números a Eugénio de Andrade.. H. Mourato deu forma a essa plasticidade das suas palavras. Estas palavras a Eugénio de Andrade são a celebração da sua poesia, mas também a memória do que foram cafés e tertúlias, onde tantas ideias , onde tantas ideias se ajuntaram para qualquer coisa mais belo. Algumas dessas palavras:

 "Com aquele semblante austero, aquele olhar levantado e distante quando era visto (ou quando se via) passar; com aquela solitária presença, protegido de silêncio ou mergulhado profundamente, com todos os sentidos, numa leitura absorvente, quem ousava romper uma tal serenidade ou quebrar essa muralha com que procurava proteger-se? E, no entatnto, bastava uma saudação amável ou até um sorriso apenas para "abrir a porta". (...)

 O halo da sua presença atraía e, com aquela sua voz inconfundivelmente amável e sedutora, quem quer que o ouvisse não podia deixar de ficar preso à sua musicalidade nem à sabedoria adivinhada em cada palavra ouvida. Mesmo não o conhecendo, pela sua voz, pela figura, era "alguém" invulgar. E era. Era o Poeta: o arquitecto exímio da palavra, com a qual era capaz de edificar palácios que resistirão ao tempo, ao mundo, aos homens, mesmo que os que por deficiência genética ou por ambição se tornam demolidores. 

 Quem o conheceu e lhe é leal não pode deixar de lembrá-lo como homem bom e cortês, afável, delicado, carinhoso, fiel, sem outra ambição que não fosse encontrar "uma sílaba, uma sílaba só...uma vogal, uma consoante, quase nada" e dar à sua vida a dimensão que pudesse ser pesada "num prato de balança" com um verso seu. Não sei de destino mais glorioso. Passou a vida toda a transformar a luz em canto. 

Que singularidade a vida e a existência deste ser comum que amou um lódão como uma criança, que louvou a heroicidade de Chico Mendes ou a memória de Ruy Belo por palavras que mais ninguém saberia harmonizar! (...) Quem te lê, sente que enlevas e elevas para onde só a poesia como a tua é capaz de transportar. Felizes aqueles que podem guardar no coração e em qualquer momento um verso teu.Isso fá-los-á estar sempre mais próximo do sol". 

    Imagem, a partir de uma escultura do mestre de artes plásticas, H. Mourato

 

sexta-feira, 15 de dezembro de 2023

Uma biblioteca imaginária - sugestões de leitura

"É então isto um livro,
este, como dizer?, murmúrio,
este rosto virado para dentro de
alguma coisa escura que ainda não existe
que, se uma mão subitamente a toca,
se abre desamparadamente
como uma boca
falando com a nossa voz?
É isto um livro,
esta espécie de coração (o nosso coração)
dizendo ‘eu’ entre nós e nós?”

Manuel António Pina,”Os livros”, in
Todas as Palavras, Assírio & Alvim.

 

    Biblioteca imaginária é aquilo que cada um é, o vivido e o sonhado, o combatido e o criado. Tudo o que vivemos é feito de histórias. Instantes criados, vividos e embalados em momentos, onde lugares, geografias, atmosferas, objetos, pessoas se oferecem numa composição de múltiplas faces. As histórias, como nós, são os elementos multiplicados e recontados como se tratasse de uma boneca russa, as matrioskas do que nos é possível contar, ou tão só imaginar. As Histórias. São elas que nos compõem. Dão-nos pontos de referência, alimentam-nos em geografias de impossível, ou em desejos de mudança, em respostas para o ocasional. Nelas sobrevivemos ou nos perdemos a compor aquilo que o real devia ser. São pois lugares, atmosferas, vivências do que amamos, das relações que conseguimos estabelecer. Sem elas não temos identidade, não temos um reconhecimento do mundo, pois elas são mais que o nosso nome, são as nossas propriedades  no real. As Histórias podem nos salvar e podem nos fazer naufragar. No fim as Histórias somos simplesmente nós. Lemos por muitos motivos. Para reconhecimento do nome das coisas, dos outros, para vermos um outro modo de podermos ser algo que tentamos construir. Definimos palavras com o mundo, registamo-las escrevendo-nos. E viajamos.

   O livro é uma continua viagem, a escrita da nossa imaginação tornada possível em mundos inventados e “quase” reais. Existe a viagem que se se realiza dentro do livro, dos instantes de leitura, das cores e dos aromas dos espaços onde se realiza. A viagem permanente, aquela que nos permite transformar um sentido, uma forma de ver o mundo, de nele escrever o que tentamos ser. A viagem como descoberta, nas suas dimensões físicas e espirituais.

   Conhecer o mundo é ir ao encontro de diversas culturas, de diferentes cores, de ver vários modos de vida. Os livros podem ser os pontos de uma descoberta ou de uma memória. Ler como viajar é construirmo-nos. Partir das palavras e fazer o caminho para descobrir os poemas do planeta, em cada recolha de sal e pó. É a viagem que nos organiza, nos identifica e é nela que a variedade do mundo nos recria. A viagem é uma forma de aprendizagem, com ela podemos compreender a beleza do planeta, a sua diversidade, o belo nos momentos de imperfeição de que é composta a vida. Afinal, como disse Santo Agostinho o “mundo é um livro”. Importa conhecê-lo nas suas formas materiais e nas suas palavras, essa biblioteca imaginária que é cada um de nós. Deixamos algumas sugestões de leituras para estes dias.

quinta-feira, 14 de dezembro de 2023

Os leitores

 


Os Leitores que integram o Top5 com mais requisições durante o 1º período. A todos eles os nossos parabéns!

Júnior Ochoa;
Laura Dolci;
Joana Machado;
Rafael Costa;
Afonso Nunes.

quarta-feira, 13 de dezembro de 2023

Livros mais requisitados: novembro e dezembro

 

Alguns dos títulos requisitados no 1.º período:

Os Maias, de Eça de Queirós;
A Balada da praia dos cães, de José Cardoso Pires;
Uma cana de pesca para o meu avô, de Gao Xingjian;
A Eneida, de Virgílio;
A jangada de pedra, de José Saramago;
Admirável mundo Novo, de Aldous Huxley;
Mrs Dalloway, de Virginia Woolf; 
O Perfume, de Patrick Süskind; 
O retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde; 
O vendedor de passados, de José Eduardo Agualusa; 
Quem me dera ser onda, de Manuel Rui; 
Se Isto é um Homem, de Primo Levi;