terça-feira, 24 de outubro de 2023

Os livros do mês - outubro - IV


Louise Glück foi prémio Nobel da Literatura em 2020 e deixou-nos fisicamente nos primeiros dias de outubro. Deu pela poesia uma voz à existência humana falando-nos da efemeridade no interior de uma universalidade que é a experiência humana e essa relação com o Natural, nessa dimensão de magia e de mistério. Há na sua poesia o encanto pelo natural, mas também pelas suas referências familiares, pela dor que está na vida, mas também os temas da da consciência, da infância, dos mitos e dos motivos clássicos. Deixamos um dos seus poemas, de Íris Selvagem

"Vá, diz o que pensas. O jardim
não é o mundo real. O mundo real
são as máquinas. Diz abertamente o que qualquer tonto
pode ler no teu rosto: que faz sentido
evitar-nos, resistir
à nostalgia. Não é
muito moderno o som que o vento faz
ao agitar um campo de margaridas:
a mente não consegue brilhar ao segui-lo.
E a mente deseja brilhar, simplesmente,
como brilham as máquinas, não
crescer até ao fundo como, por exemplo, as raízes. Ainda assim,
é muito comovente ver como te aproximas com cuidado
da orla do prado, de manhãzinha,
quando ninguém te vê. (...)
Ninguém quer ouvir
as impressões do mundo natural."

Glück, L. (2020). A Íris Selvagem. Lisboa: Relógio D´Água.

segunda-feira, 23 de outubro de 2023

Boletim Bibliográfico

 António Lobo Antunes

Acessível como pdf no link acima e no QR-Code)

 

Festival literário de Mafra

A Câmara Municipal de Mafra através dos serviços culturais da Biblioteca Municipal promove um festival literário a decorrer entre 30 de outubro e cinco de novembro. Destacam-se as seguintes iniciativas:
  • um de novembro: inauguração com Sampaio da Nóvoa;
  • dois a cinco de novembro - Feira do Livro;
  • dois de novembro: Encontros com autores: "História e Ficção": Isabel Stilwell, Alberto Santos e Paulo Moreiras ;
  • dois de novembro: "A guerra na literatura", com Sérgio Luís de Carvalho e Ana Margarida de Carvalho;
  • três de 3 novembro – "Língua portuguesa: uma casa comum", com Dulce Costa Pereira, José Luis Tavares e Germano Almeida;
  • três de novembro: "António Gedeão, professor e poeta", com Cristina Carvalho, André Gago, Carlos Fiolhais;
  • quatro de novembro: encontro com autores, "Ler para quê?" (Ana Cristina Silva, Álvaro Laborinho Lúcio e Eduardo Sá) e Encontro com escritores, "Escrevo para fazer acontecer" (José Fanha, Ondjaki e Alice Vieira);
  • cinco de novembro - Ilustração, com André Letria, Jorge Silva e Catarina Sobral;
  • cinco de novembro: "Mafra: Horror e Maravilha", com Hélia Correia;
Deixa-se o link com acesso nas diferentes iniciativas com o formulário para a necessária inscrição. 


sexta-feira, 20 de outubro de 2023

Livros do mês - outubro III



A Desumanização de Valter Hugo Mãe é um livro de assombro que assume na escrita um continente poético de uma ilha muito especial, a Islândia. Estamos aqui perante um livro alucinante de tristeza, de solidão, mas sempre a apostar na ternura, na reinvenção do coração. É um livro que tenta também ser uma obra plástica sobre a vida, a morte e os fantasmas que nos habitam. Um livro imenso, fascinante pela forma como nos interroga. A Desumanização é um livro difícil, de uma beleza tocante e que é uma declaração de amor à Islândia, ao homem e à natureza como fonte contínua de redescoberta.                                            

A Islândia é uma paisagem entre a desolação, a solidão nos elementos e um sentido onírico, pelas viagens que nos permite fazer, a nós, emersos num natural imenso, do tamanho da fundação do mundo. Viver na Islândia implica fazer um diálogo com esse natural. Implica fazer das forças naturais, dos elementos, dos vulcões, das montanhas de gelo formas de pensamento e ver em tudo isso formas silenciosas dos deuses. A cada instante os elementos naturais revelam-nos que há forças vitais a suportar esse momento que parece tão próximo da fundação do dia em que Deus acordou para o mundo. Só um homem capaz de entender essa vitalidade e de a reconstruir no seu quotidiano, nas suas lendas, no sentido épico poderá viver num espaço desses.

É neste enquadramento que Valter Hugo Mãe compõe uma história, onde ao lado dos elementos naturais, feitos de uma dimensão agreste nos conta uma história de amor, uma narrativa de perda e uma reconciliação com a vida. Juntando referências da mitologia nórdica, a elementos da literatura de natureza épica (Jóhann Sveinsson Kjarval) ou à música dos hinos religiosos (Hallgrímur Pétursson), ou a referências literárias muito significativas (Thor Vilhjálmsson), A Desumanização é uma obra literária plena de natureza e de poesia.

A Desumanização é um relato comovente sobre uma criança à deriva, sobre uma aldeia perdida num fiorde, mas é sobretudo a construção de uma viagem entre esses elementos naturais, os homens e Deus. Desse Deus não organizado em sentidos oficiais, mas aquele que se revela no natural, que se revela nas coisas, aquele que nos mostra que o homem é um ser à espera de um fim, pois "tudo na vida tem a ver com a morte". A conciliação final é uma redenção feliz para um conjunto de personagens à deriva num continente de gelo e desolação. A Desumanização é um livro imenso e não será exagerado dizer-se que é uma obra-prima da literatura.

Mãe, V. H. (2013). A Desumanização. Porto: Porto Editora.

quarta-feira, 18 de outubro de 2023

Livros do mês - outubro II


O que pode acontecer quando um livro se encontra inesperadamente no seu quotidiano com alguém e se essa pessoa for a Rainha, o que poderá ocorrer?

"Num passeio com os seus cães, a Rainha descobre uma carrinha de livros de uma biblioteca itinerante. Pode esse encontro mudar algo do seu quotidiano?
"A Rainha nunca se interessara muito pela leitura. Lia, é claro, como toda a gente, mas gostar de livros era algo que deixava aos outros. Era um passatempo e fazia parte da natureza do seu cargo não ter passatempos. A sua função era mostrar interesse por, não deixar que ela própria se interessasse. Além disso, ler não era fazer. Ela era alguém que faz. (...)

Passados algumas semanas a Rainha sentiu-se perturbada e a pensar porque é que, neste momento particular da sua vida, sentira subitamente atração pelos livros. Donde surgira esse interesse?
Sim, poucas pessoas tinham visto mais mundo do que ela. Estando ela própria na tribuna do mundo, porque se entusiasmava agora com livros que, por muito que pudessem ser, não passavam de um reflexo ou versão do mundo? Livros? Ela vira a realidade. (...)

O apelo da leitura, pensou, vinha da sua indiferença: havia na literatura algo de nobre. Os livros não se importavam com quem os lia, nem se os líamos ou não. Todos os leitores eram iguais, incluindo ela própria. Porém, dúvidas e interrogações eram só o princípio. Uma vez no ritmo normal, deixou de lhe parecer estranho o facto de querer ler, e os livros, aos quais se afeiçoara tão cautelosamente, passaram pouco a pouco a ser o seu elemento. (...)

No seu encontro com Sir Kevin, ele adiantou:
- Se conseguíssemos aproveitar a vossa leitura para um objetivo maior: por exemplo, a melhoria dos critérios de leitura entre os jovens...
- Lemos por prazer - disse a Rainha.
A leitura fez-lhe pensar na escrita, nos que escreviam. E descobriu que depois de escrever alguma coisa, mesmo que fosse só uma nota no caderno, ficava feliz como dantes, depois de ter estado a ler. E ocorreu-lhe que ler era ser um espetador. Escrever era agir, o que ela devia fazer."

Bennett, A. (2009). A Leitora Real. Lisboa: Asa.

segunda-feira, 16 de outubro de 2023

Dia Mundial da Alimentação (II)

 A Biblioteca promoveu com as turmas de Saúde e o curso profissional de Restauração e Bar a celebração do Dia Mundial da Alimentação. 


Foi realizada uma sessão no auditório em que a Dr.ª Mariana Caeiro falou da Síndrome do Intestino Curto. Foram apresentadas as situações que limitam a vida alimentar das pessoas que apresentam este diagnóstico. A alimentação de quem tem esta doença crónica e as limitações no seu apoio, sobretudo para crianças em idade escolar foram apresentados a todos. Foi possível fazer uma entrevista em direto com uma mãe que tem uma criança com esta síndrome e foi muito interessante ouvir o modo como tem apoiado o seu filho nas questões de alimentação.

A Biblioteca promoveu o visionamento do documentário "Sementes da Liberdade" que apresentou os aspetos mais críticos do uso das sementes pela química e pela engenharia genética e como isso tem limitado a sobrevivência de muitas comunidades locais e de como isso afeta a qualidade dos alimentos e o impacto da sua plantação no meio ambiente.

Finalmente a Biblioteca construiu um marcador digital e um documento, disponibilizado em QRCode sobre a dieta mediterrânica e que colocava em discussão várias questões, como os valores éticos influenciam as nossas escolhas alimentares, como a publicidade e o marketing vendem "felicidade" em alimentos que são muitas vezes pouco saudáveis. A fome e o desperdício foram dois dos itens em confronto, e como eles influenciam a vida do planeta. Os alunos foram convidados a deixar uma ideia, um pensamento, um comentário no mural da Biblioteca. No QR Code o acesso ao ficheiro e À proposta de atividade promovida pela Biblioteca em colaboração com os alunos que participaram neste encontro de evocação do Dia Mundial da Alimentação.